PARA LER E RELER

sexta-feira, 15 de julho de 2011

ESTOU ENVELHECENDO: UMA CRÔNICA!



Dia desses, ao sentar para almoçar falei à minha esposa: “Estou envelhecendo!”. Ela, imediatamente, me perguntou: “Por que você está dizendo isto?”. Então lhe respondi: ''Comecei a contar histórias do que fiz e não mais do que farei''.

Respondi e comecei a “tricotar” com os talheres. Filosofia é a arte de brincar ao redor da mesa e vê nas ''bolas de sabão que a criança se entretém a largar de uma palhinha são translucidamente uma filosofia toda” (Fernando Pessoa). É como a eucaristia. É bela porque é comunhão ao redor da mesa; é comer e beber solidariamente! Ali uma verdade havia dado luz, a saber: a velhice não aparece quando os cabelos estão ficando brancos, mas quando o caderno de anotações dos sonhos não recebe mais tinta. Como disse o pedagogo e filósofo Rubem Alves: “Toda saudade é uma espécie de velhice”.

Não procuro depreciar o passado. A nostalgia também nos faz avançar. Todavia, chega um momento em que a nostalgia torna-se crônica. Não se consegue mais andar, apenas procura-se encasular. Se pelo menos saísse uma borboleta! Mas não. O casulo é uma decida ao túmulo que se constrói primeiramente no pensamento. Prefere-se mais pensar a correr. Depois se prefere a solidão à companhia: o diário é trocado pela biografia! O nosso túmulo encontra-se na biografia. Quem terminou sua biografia, concluiu seu túmulo!

A nostalgia é o início de nossa biografia. Quando ela chega, começamos escrevê-la. Procuramos os antigos amigos, as antigas aventuras e damos nome e graça a toda e qualquer circunstância que recebe uma interpretação (ou acréscimo!) para tornar-se mais dramática, ou romântica, ou engraçada... E começamos a construir o passado! Para isto paramos no presente. Não se pode construir duas pontes!

O passado é nosso túmulo. Sua construção é mortuária. É edificado pela efêmera lembrança que a vida passou e já não pulo como criança e nem brinco de amarelinha. E me vejo túmulo. Como todos. Olhar perdido no horizonte. Olhando para o vazio de um futuro que não se tem e nem se terá. Para o passado não se olha. Ao passado se fecha os olhos. Pressiona-o. O passado não é uma época no tempo é a escuridão da mente. É por isso que fechamos os olhos para não olhá-lo. Para ele não se olha, apenas se finge que não é cego!

Freud disse que os sonhos são os desejos reprimidos. Particularmente, reluto em aceitar essa definição. Sonhos é o resultado das imagens do ontem e que estão ocupando a memória sem função, pois o hoje é uma memorização e não uma re-memorização. Talvez seja por isto que vivemos num presentismo: nem sonhos somos capaz de produzir. Assim, cada vez mais estão escassos os sonhos nas minhas noites, quando antigos amigos me visitavam e eu acordava abraçado pela saudade. Nisso vou a Fernando Pessoa: “E a saudade que me aflige a mente. Não é de mim nem do passado visto, senão de quem habito por trás dos olhos cegos. Nada, senão o instante, me conhece. Minha mesma lembrança é nada, e sinto que quem sou e quem fui são sonhos diferentes”.
Não pensem que a descoberta da velhice é a plenitude do pessimismo. Existe um mistério na velhice: o sol terá que se pôr e a flor murchará! Pelas grades do corpo, a nossa alma se sabe capaz de pular sem pular... O bom é que na velhice sabemos que aquilo que as crianças e jovem fazem sempre foi uma possibilidade para nós e até fizemos também. É tempo de começar a curtir a doçura de uma cadeira de balanço e velar para que descubramos que a vida se respira no divã da saudade que longe estar ser “dor de cotovelo” (inveja).
Creio na ressurreição do corpo, lugar da eterna juventude e da eterna velhice. Aí a velhice será sempre uma poesia, uma gostosa gargalhada entre amigos e uma crônica a si mesma. Tempus fugit!

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